Vagas só por celular: Rio Rotativo Digital começa sexta-feira pela Lagoa; saiba como o sistema vai funcionar
Por: João Vitor Costa , Luiz Ernesto Magalhães e Joziane Barboza
Fonte: O Globo
O celular, tão essencial no dia a dia, ganhará mais uma função: começa na sextafeira
o Rio Rotativo Digital que eliminará os antigos talões e qualquer forma de
pagamento em dinheiro. Os motoristas terão que baixar o aplicativo Jaé no
telefone para conseguir ocupar uma vaga e pagar por ela. O projeto-piloto será
implantado nos estacionamentos às margens da Lagoa, na Zona Sul caroca, que
hoje são fechados por cancelas e chegam a cobrar R$ 75. Agora o valor será de
R$ 2 a cada duas horas. Os pagamentos digitais serão por Pix, cartão de crédito
ou com o saldo disponível no Jaé — o vale-transporte não será aceito.
Os guardadores vão continuar nas ruas, mas para fiscalizar se o pagamento digital
foi feito ou se o motorista excedeu o tempo de permanência. Como eles não têm
poder de polícia, a multa — de R$ 195,23 — será lavrada por agentes de trânsito
de forma remota. A tarifa está mantida em R$ 2, mas há novidades em relação ao
modelo em papel, em vigor desde os anos 1990. Foi estabelecido um prazo de
até seis horas diárias para usar a mesma vaga. Passado esse período, o motorista
só poderá voltar a estacionar naquele lugar depois de pelo menos uma hora.
Mais rotatividade
Hoje, muitos motoristas compram vários talões para permanecer numa mesma
vaga o dia inteiro. Esse expediente é muito comum na orla da Zona Sul, onde
barraqueiros e ambulantes costumam ficar horas no mesmo ponto.
— Esse limite de tempo foi fixado porque queremos que as vagas sejam de fato
rotativas e não cativas como tem acontecido — disse o secretário municipal de
Transportes, Jorge Arraes.
Ainda não há data para que as cerca de 35 mil vagas públicas na cidade migrem
para o sistema digital. Todas estão sendo recadastradas pela Companhia de
Engenharia de Tráfego (CET-Rio). Contudo, já foram definidas prioridades para os
próximos meses: as orlas da Zona Sul, da Barra da Tijuca e do Recreio dos
Bandeirantes, além do Centro. Na maior parte dos estacionamentos, a operação
será das 7h às 19h. Mas, em regiões com grande demanda, o período pode se
estender até as 23h, como na Lagoa.
São 667 vagas no projeto-piloto ao longo das avenidas Borges de Medeiros e
Epitácio Pessoa. Elas ficam nas proximidades dos clubes Caiçaras e Piraquê e dos
parques das Taboas, dos Patins e do Cantagalo. Até ontem, eram exploradas por
uma empresa privada que não teve o contrato renovado pelo município e que,
em alguns pontos, cobrava por hora R$ 20, nos dias úteis, e R$ 18, nos fins de
semana.
A prefeitura definiu que apenas pessoas filiadas ao Sindicato dos Guardadores de
Automóveis do Estado (Singaerj) ou à Associação Nacional dos Guardadores e
Lavadores de Automóveis, Congêneres e Afins (Anglaca) vão poder atuar na
fiscalização, recebendo R$ 1,40 por tíquete vendido. Eles serão identificados por
coletes numerados, nos quais há uma mensagem informando que não recebem
dinheiro e que os pagamentos só podem ser realizados por meio digital.
— O Rio Rotativo Digital é o fim dos talões e daqueles flanelinhas que achavam
que podiam extorquir qualquer valor da população — disse o prefeito Eduardo
Cavaliere, por meio das redes sociais.
A prefeitura afirma que a repressão aos flanelinhas ilegais será feita por agentes
da Secretaria de Ordem Pública ou outras autoridades.
— Para auxiliar na fiscalização, estamos desenvolvendo uma funcionalidade no
Jaé a ser implantada em outro momento em que o guardador ou o motorista
poderá denunciar casos de extorsão, ou outros crimes. A repressão pode não ser
na mesma hora, mas vai ajudar no planejamento de operações — acrescentou
Jorge Arraes.
O fim das cobranças extorsivas é o que a população espera do novo sistema.
Diretora da Associação de Moradores da Fonte da Saudade (Amafonte), Neli
Goston, de 71 anos, conta que flanelinhas chegam a cobrar R$ 100 para o
motorista estacionar nas vagas do canteiro central da Avenida Epitácio Pessoa,
que não foi incluída no projeto-piloto.
— Ou paga, ou tem o carro riscado. É perigoso — disse.
A redução do preço foi elogiada:
— Atualmente pago de R$ 700 a R$ 800 por mês por uma vaga. É um valor
elevado e não me sinto seguro, pois não há câmeras de monitoramento ou fiscais
— diz o proprietário de uma distribuidora de gelo que costuma parar o caminhão
no Parque das Taboas e pediu para não ser identificado.
Ontem à tarde, a prefeitura começou a implantar a nova sinalização indicativa das
vagas. Ao todo, vão trabalhar na Lagoa 50 guardadores, que passarão por um
treinamento amanhã. A fiscalização funcionará da seguinte forma: com o próprio
celular, eles vão enviar, por meio de uma funcionalidade disponível apenas para
eles no aplicativo Jaé, três fotos que mostram a placa do veículo, o local onde foi
tirada e algum outro detalhe da cena. Em alguns lugares onde moradores,
portadores de deficiência e idosos têm prioridade, uma foto do cartão de
identificação deve ser feita.
O presidente do Singaerj, Moises Trajane, diz que, entre os guardadores, ainda
há dúvidas sobre o sistema:
— A gente sabia que a tecnologia viria, mas tinha medo de os guardadores
legalizados ficarem desempegados. A novidade sempre preocupa, mas a
categoria está contemplada.
Outras tentativas
Trajane, no entanto, acha excessivo o total de guardadores mobilizados para o
projeto-piloto. Na Lagoa, com os preços praticados pela antiga operadora, a
demanda era baixa, o que pode mudar com a redução do preço para R$ 2.
— Ao todo, temos 25 vagas, mas durante a semana o número de carros que
param por aqui não chega a dez. Nos fins de semana, temos uns 20 — contou
um guardador que trabalhava ontem no Parque das Taboas.
Essa não é a primeira vez que a prefeitura tenta reorganizar o sistema público de
vagas. Em 2009, a Embrapark foi contratada para operar o que definiu como Área
Azul, com 9.049 vagas em ruas de oito bairros da Zona Sul (Leme, Copacabana,
Ipanema, Leblon, São Conrado, Jardim Botânico, Gávea e Lagoa). Mas a empresa
não conseguiu levar o projeto adiante por questões técnicas e deixou o sistema
em 2014. Em 2001, o município decidiu que qualquer pessoa poderia comprar os
tíquetes diretamente — em blocos com 50 talões cada — por R$ 0,40 a unidade.
Geralmente, os clientes são os guardadores vinculados ao sindicato e à
associação.
Segundo Arraes, a receita mensal do Rio Rotativo para a prefeitura ficou em R$
208 mil no mês passado. Ele evitou projeções sobre quanto o novo sistema vai
render.
Perguntas e respostas
Como pagar para estacionar no Rio Rotativo Digital?
O motorista deverá baixar o aplicativo Jaé no aparelho celular e selecionar a
opção “Rio Rotativo”. E poderá pagar por Pix ou cartão de crédito, informando a
placa do veículo e o tempo de permanência. Saldos do Bilhete Único (desde que
não sejam emitidos como vale-transporte) podem ser usados. O guardador deixa
de receber dinheiro e fiscaliza se a vaga foi paga ou ultrapassou o prazo de duas
horas.
Posso pagar R$ 6 para usar a vaga por até seis horas?
Negativo. Por georreferenciamento, o Jaé identifica a vaga credenciada e emite a
autorização válida por duas horas. Antes de o prazo expirar, será emitido um
alerta para o celular credenciado para que o proprietário retire o veículo ou
renove o pagamento — o que pode ser feito por mais dois períodos.
Estacionei e não paguei pela vaga. A multa de R$ 195,23 será lavrada de
forma automática?
Nesse caso, o motorista terá até oito horas após deixar o local para efetuar o
pagamento. Mas o valor cobrado será o dobro do original. Ou seja, pode pagar
até R$ 12. Haverá um período de adaptação. Como a migração para o sistema
digital será gradual, multas só começarão a ser aplicadas uma semana após a
implantação do sistema em uma região da cidade.
Esqueci o meu telefone celular em casa ou o aparelho está descarregado.
Vou poder comprar o tíquete com o guardador que fiscaliza o local?
Com o fim do Rio Rotativo e do talão de papel, o guardador vai apenas fiscalizar
se os motoristas pagaram ou eventualmente excederam o período permitido. À
medida que o sistema for sendo implantado, os agentes passarão a usar um
colete informando que não cobram por vaga.
Há relatos de furtos de sinalização e as placas são colocadas em áreas não
regulamentadas pela prefeitura. Como vou saber se não parei em um local
onde posso ser multado por estacionamento irregular?
Como o sistema é georreferenciado, o aplicativo Jaé vai informar, se for o caso,
que não há vagas legalizadas no local.